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domingo, 15 de junho de 2014

Nada de perguntas! (final)

Antes de me virar para ver quem se dirigia a nós, ouço uma voz de um homem a cumprimentar o Pedro.
-      Senhor Pedro Castro, receava já não haver uma oportunidade de conversarmos.
-      Senhor Engº. Barbosa, como está? Pensava que só viria amanhã. – articulou nervosamente.
-      Por motivos de força maior, terei que viajar amanhã para o Brasil, se quiser apresentar a tal proposta terá que ser agora, se chegarmos a acordo depois poderá tratar dos pormenores com o meu staff.
          Este devia ser um dos potenciais clientes de quem ele andava atrás. Ele tinha mencionado qualquer coisa acerca disso durante o almoço. Eu não queria acreditar que a besta do velho fosse insistir em tratar de trabalho à uma e tal da manhã. Virando-se para mim, apresentou-me, dizendo que eu era uma velha conhecida, que estava ali também para o congresso. Não tive a certeza que o velho tivesse ficado convencido, pois ao despedir-me deles, ainda o ouvi sarcasticamente a perguntar ao Pedro, pela sua encantadora esposa, e pelos filhos.
          Depois de recolher o cartão-chave na recepção, olhei disfarçadamente e vi-os dirigirem-se para o bar do hotel. Enquanto o homem falava, ele num breve arquear de sobrancelhas, deu-me a entender que não poderia fazer nada. Eu entendi.
No elevador, respirei fundo… parecia que agora, longe dele a sua influência sobre mim ia esmorecendo, e pensando agora mais friamente no que estivera prestes a acontecer, tudo não parecia mais do que uma grande loucura… contudo, não podia ignorar um certo sentimento de frustração. Algo em mim mudara definitivamente.
Cheguei ao quarto, despi-me e tomei um duche… enfiei-me num negligé, e deitei-me… não conseguia deixar de pensar no que se tinha passado naquele dia, tinha sido o ponto de viragem da minha vida… peguei no telefone e liguei ao meu marido, como calculei ele ainda não estava a dormir, sem pormenores disse-lhe que estava tudo bem e que ia dormir. Quase a desligar, ainda lhe disse:
-      Sobre o que nós temos falado… eu pensei nisso. E acho que finalmente entendi o que nunca tinha conseguido entender. Tu tens razão… vamos fazer o que tu tanto queres.
-      A sério? Eu amo-te tanto… – Ele estava radiante.
-      A sério… e eu também te amo, depois falamos sobre isto, agora dorme. – Disse-lhe, desligando a chamada.
Tinha a certeza de que algures no Porto, havia pelo menos um homem felicíssimo. Sabia que mais cedo ou mais tarde ia ser pai. E eu encarregar-me-ia de tratar disso.
Desliguei a luz e fiquei a olhar para a lua, enorme que me espreitava pela janela do quarto. De repente, dei por mim a imaginar como aquele luar era tão mal empregue em não estar a iluminar corpos a fundir-se um no outro. E que esses corpos não só poderiam, como deveriam ser o meu e o do Pedro. Estava outra vez a arder, e o foco principal do incêndio ansiava por ser tocado, deslizando as minhas mãos pelo meu corpo, comecei a acariciar-me, senti-me completamente molhada de desejo, e com os dedos, comecei a masturbar-me, com uma mão a deslizar na parte de dentro das minhas coxas, imaginando ali o toque das ancas dele, e com a outra mão a acariciar-me o clítoris, vim-me como não me lembrava de alguma vez me ter vindo, bastou-me imaginar que ele estava ali, a possuir-me toda. A fazer-me um filho. Estava toda a tremer.
 O orgasmo tinha-me deixado completamente nas nuvens, e fechando os olhos deixei-me adormecer, enquanto na minha mente iam desfilando imagens de corpos nus, transpirados, ofegantes, a ultima coisa de que me lembro foi de me ter sentido adormecer com um longo suspiro.
  Sem saber ao certo o que me tinha feito despertar do turbilhão que estava a ser o meu sonho, acordei. Estava tudo silencioso, o som da rua, mesmo com a janela do quarto completamente aberta, não chegava ao vigésimo segundo andar. Pelo menos àquela hora da noite, em que as ruas deviam estar desertas. Esticando a mão peguei no telemóvel para ver as horas, duas e quarenta e cinco. Já prestes a esquecer o assunto, ouvi leves pancadas na porta.
Fora isso que me despertara. Intrigada, levantei-me e dirigi-me à porta. Provavelmente fruto do magnetismo que dele sentira durante todo o dia, mesmo antes de abrir, pressenti que era o Pedro.
E foi sem palavras que ele transpôs a porta. Ao mesmo tempo que a fechava com um pé, puxou-me para ele, beijando-me, levantou-me e foi ao colo dele, com as minhas pernas à volta das suas ancas que me levou para a cama. Sentou-me na beira, e começou a desapertar a camisa. Eu levantei-me e fi-lo parar. Queria ser eu a despi-lo. Desapertei-lhe a camisa até baixo. De seguida, despertei-lhe o cinto e soltei um suspiro quando senti o volume que lhe deformava as calças quando as desapertei, deixando-as cair aos seus pés. Passando-lhe as mãos pela barriga, sentindo o resultado que anos de ginásio provocam, deslizei-as pelo seu peito, largo e afastei-lhe a camisa, passando-a pelos seus ombros e depois continuando a descê-la pelos seus braços, dando um último puxão, fiz voar os seus botões de punho pelo chão do quarto. Com um rápido movimento descalçou-se ficou ali à minha frente, de boxers. A lua, que entrava pelo quarto a rodos, iluminava-o. O volume que sentira, duplicara, deixando-me adivinhar o quanto ele estava louco de desejo.
Não consegui esperar mais. Voltando a sentar-me na beira da cama, com as duas mãos fiz deslizar por ele abaixo a ultima barreira que me separava daquela masculinidade. Ofegante e sentindo o coração a galopar-me no peito, engoli em seco vendo a força que emanava daquele fabuloso instrumento de culto, ali a centímetros de mim, obscenamente apontado à minha cara. Peguei-lhe, e ele, com o meu toque, pulsou nas minhas mãos, respirando fundo, gemeu de prazer quando eu lhe beijei a glande, descomunal. Queria demonstrar-lhe toda a minha submissão, com esforço tudo o que consegui foi que entrasse parcialmente na minha boca, de seguida, comecei a beijá-lo todo, lá desde a base, até novamente à ponta. Ao fazê-lo, esfregava-o na minha cara. Durante todo este tempo, nunca desviámos os olhos um do outro.
Então, pegando-lhe nas mãos, puxei-o enquanto me ia reclinando até que fiquei deitada de costas, bem no centro da cama. Ele veio por cima de mim, envolvendo-me com os seus braços, deixando-me sentir o seu peso, começou a beijar-me na boca. Eu queria mais, delirando de desejo, ele foi-me beijando o pescoço, descendo pelo meu corpo, sugando-me os mamilos, primeiro delicadamente, e depois mordendo-me com força. Descendo mais, beijou-me a barriga cada vez mais para baixo, até que senti os meus pêlos na sua cara. Sentia-me a derreter. Sentia-me escorrer de desejo, e ele não desperdiçava um pouco que fosse do que eu lhe estava a dar. Ao mesmo tempo que me devorava com a boca, fazendo-me quase desmaiar de prazer, ia-me explorando com os seus dedos. E que dedos! Tocando-me em sítios que nem eu própria imaginava ter, levou-me a uma espécie de limbo, em que, sem o mínimo controlo sobre o meu corpo, nada mais podia fazer senão gemer e gritar de prazer, enquanto ia sentindo num atrás do outro, uma onda interminável de múltiplos orgasmos.
Nunca na vida sentira nada parecido. Mas queria mais. Queria tudo. Queria senti-lo dentro de mim. Ele, parecendo adivinhar, volta a pôr-se sobre mim. Ao mesmo tempo que colocava a sua boca junto da minha, respirando o meu ar, colocou o seu enorme pénis à entrada da minha vagina. Minha não, dele. Assim como toda eu, era dele. E começou a forçar a entrada. A dor que provocou ao esticar os meus lábios depressa se transformou no mais puro e animal prazer. E veio empurrando, num lento vai e vem, de cada vez que saía, entrava um pouco mais. E eu ia-me ajeitando, abrindo-me ao máximo, empenhando-me para acomodar tudo aquilo dentro de mim. E então, adivinhando um novo orgasmo, puxei-o ainda mais. Queria-o todo. Todo o seu peso. Toda aquela peça de carne pulsante distendendo-me as paredes interiores vagina, preenchendo-me completamente. Tendo a noção de que todas as minhas barreiras estavam agora derrubadas, pego-lhe na cabeça, procurando forma de encostar a minha boca ao seu ouvido. No meio da respiração ofegante e completamente descontrolada, e com a voz já rouca de tanto ter gemido, falei pela primeira vez:  
-      Sim… toma-me toda… eu sou toda tua, fode-me toda, solta todo o teu esperma dentro de mim…sim…
Cravando as minhas unhas nas suas nádegas, duas enormes bolas de carne, que a cada estocada ficavam rijas como mármore, puxei-o com toda a minha força. Já estava. Podia sentir os seus ossos pélvicos a esborrachar-me os lábios completamente abertos para engolir todo aquele mastro. Sentia-o tão dentro de mim que certamente pressionava a entrada do meu útero. Estávamos completamente alagados em suor, o dele, misturava-se com o meu encharcando-me o negligé. Precisando de me ver toda, de sentir a sua pele na minha, abriu-mo com um só rasgão. Agora sim. Sem nada entre nós, sentia-me toda dele. Sentia-o por todo o meu corpo!
Quando eu pensava que ele já não poderia entrar mais em mim, levantou-me as penas, colocando-as sobre os seus ombros. E foi assim que ele ficou por mais sei lá quanto tempo, ora lentamente, deixando-me sentir todo o seu comprimento, agora entrando e saindo quase todo, deixando só a cabeça dentro de mim e voltando e enterrar-se todo, ora aumentando o ritmo até passar a foder-me alucinadamente. Em boa verdade, tenho poucas certezas de não ter desmaiado durante aquela foda.
Então, começou a abrandar. Totalmente enterrado dentro de mim, mexendo-se quase imperceptivelmente, até que se imobilizou por completo. Com aquele esgar tão característico de quem está a ter um majestoso orgasmo, disse-me ao ouvido “ Toma! Toma-me todo!”. Veio-se. Explodiu dentro de mim, de cada vez que se contraía dentro de mim, sentia mais uma vaga de esperma quente e espesso a derramar-se bem dentro do meu ventre perfeitamente preenchido por toda aquela imensa peça de carne. Tudo o que ele despejou dentro de mim, cá ficou. Só sairia quando ele saísse de mim. E eu não o permitiria tão depressa. Puxei-o ainda mais para cima de mim. Deixou-se ficar assim até ter recuperado a respiração. Eu pensava que ele entretanto amolecesse e que saísse. Puro engano, mal perdeu um pouco a rigidez, voltei a senti-lo pulsar, e dentro de pouco tempo voltava a penetrar-me, agora mais lentamente, saboreando cada milímetro da minha distendida vagina. Já o dia começava a clarear quando finalmente adormecemos.  
Escusado será dizer que nos dias que o congresso durou, por poucas vezes saímos do quarto.

Quando voltei para casa, no final dessa semana, sentia-me outra mulher. E era. O meu marido notou algo de diferente, e perguntou-me o que se passava. Colocando-lhe o indicador nos lábios fiz-lhe sinal para nada dizer.
-      Nada de perguntas, lembras-te?
E nada mais me disse. Nunca mais entre nós se tocou no assunto da minha viagem a Lisboa.
Nem mesmo quando, umas três semanas depois, e como resultado dum teste de gravidez, lhe dei de presente uma chupeta. Ficou radiante, era o futuro papá mais babado do mundo. Nada o poderia fazer mais feliz.
Nada excepto uns meses mais tarde, ao lhe ter oferecido uma outra chupeta, ao que ele fazendo uma cara de surpresa disse que eu já lhe tinha dado uma. Respondi que seria uma para cada bebé, uma azul e outra cor-de-rosa. Estava grávida de gémeos. Um casalinho.
Nem sequer até hoje, que os gémeos já gatinham, nunca falámos sobre aquela viagem. Eu tinha realizado o sonho do meu marido. Tinha realizado o meu também.

Ah! E acerca do que o meu marido tão insistentemente me pedia, antes daquela bendita viagem era que, sendo ele estéril devido a uma doença infantil, eu podia seduzir um homem que me engravidasse. Nenhum de nós confiava nos bancos de esperma, e desde que, o que quer que acontecesse ficasse bem enterrado nas brumas do esquecimento, o trato era mesmo “nada de perguntas!”.
Nunca mais voltei a ver o Pedro. Mentiria se dissesse que, de tempos a tempos não sinto algo a mexer comigo quando penso nessa semana que passamos juntos.
Quando olho para os miúdos, o que vejo, são os filhos do meu marido e não do Pedro. Quanto à vontade de voltar a ser dele, não é coisa que eu planeie que venha a acontecer!


Pelo menos até os miúdos terem uns quatro anitos, altura ideal para eles terem mais um mano… ou dois.



FIM

Nada de perguntas! (de um fã que prefere continuar anónimo)

Olá Dulce, depois da nossa conversa, e pela tua preocupação com a inatividade dos últimos dias no blog, e consequente pedra de interesse nos visitantes, deixa-me contribuir como posso: este é o meu melhor conto, se for suficientemente bom, por favor publica-o. 
As rápidas melhoras!


Nada de perguntas


Há quem acredite no destino. Eu, até há pouco tempo não acreditava. Redundância à parte, foi o “destino” que se encarregou disso.

A meio dos trintas, e casada há onze, com um casamento de sonho, amava o meu marido, e só havia um assunto que provocava algum tipo de atrito entre nós, era sermos pais, mas por mais que o meu marido me tentasse convencer, não me achava capaz de lhe satisfazer esse sonho.
          No final de Junho do ano passado, houve um congresso de segurança e higiene no trabalho em Lisboa, e eu como responsável desse departamento numa multinacional, tive que ir, confesso, um pouco contrariada, mas são ossos do ofício. Assim, lá apanhei o intercidades numa terça-feira de manhã. Sempre gostei de andar de comboio, dá oportunidade de aproveitar o tempo de duas maneiras; seja para trabalhar ou para descansar, enquanto nos deslocamos.
          Perto de mim ia uma senhora com um menino que devia ter uns dois anitos, lindo como todas as crianças enquanto são pequenas, Dei por mim outra vez a pensar nas ultimas palavras que o Daniel, o meu marido, me dissera ao despedir-se de mim nessa manhã. “Pensa nisso, eu peço-te por favor, eu amo-te, e amar-te-ei sempre, aconteça o que acontecer. Cada vez mais. Dá-me um filho.” Despedimo-nos com um beijo. Tinha medo de, ao realizar o sonho dele a nossa relação mudasse de tal modo que ficasse em risco.
          Para esquecer esse assunto, liguei o portátil. Fui enviando alguns mails e anotando ideias do que seria interessante ver discutido no congresso.
          Cheguei a Lisboa, e um táxi depois estava no hotel por volta do meio dia, depois de fazer o registo de entrada deixei as coisas no quarto e desci ao restaurante para almoçar, a meio do almoço liguei ao Daniel, disse-lhe que tinha feito a viagem sem stress, que os comboios tinham mudado imenso desde os tempos em que eu fazia aquela viagem todas as semanas, nos meus tempos de faculdade, recomendou-me que pelo menos que me divertisse e aproveitasse aqueles seis dias num hotel de cinco estrelas, com tudo pago, que eram uma das vantagens destes congressos. Desligámos. Fiquei aliviada por ele não ter falado outra vez no mesmo.

          Já quase a acabar a sobremesa, absorta nos meus planos de como iria gastar o tempo até às seis, hora a que seriam iniciados os trabalhos, fui desperta por uma voz que, embora não a ouvisse há séculos, tive a certeza a quem pertencia.
-      Avelã! E eu a pensar que seria mais um fim-de-semana de seca…
           Pedro. O Pedro da faculdade. Sempre me tinha chamado de Avelã, por causa da cor dos meus olhos. Nunca mais o tinha visto desde aí. Éramos os melhores amigos na faculdade, ele, extremamente inteligente, e com um sentido de perspicácia que lhe davam uma argúcia quase felina, complementado com uma sinceridade absoluta, por vezes até sincero demais, ao ponto de me dizer sem pudor nenhum que eu era a mulher dos sonhos dele, mas que não queria sequer pensar nisso, pois conhecia-se bem demais para destruir uma amizade tão forte com outras coisas, pois o mais certo seria, na primeira oportunidade ele fazer merda e enrolar-se com uma caloira qualquer. Ele era assim. O que ele nunca soube foi que eu me estava a marimbar para as consequências, que por mim, desde que o tivesse, só que fosse por uma noite, pagaria o preço que fosse preciso. Mas nunca tive coragem de lhe dar a conhecer o que sentia por ele. O tempo foi passando, até que na festa de formatura foi com a garganta seca que o vi sair com uma fulana qualquer. Soube mais tarde que tinham casado.
          Nisto baixa-se para me cumprimentar e pousa-me a mão no ombro provocando-me um arrepio ao mesmo tempo que me dá um beijo na cara. Perguntou-me se estava só, respondi que sim e convidei-o para se sentar, ia agora mesmo pedir café. Aceitou com um sorriso.
          Fomos pondo a conversa em dia, ele divorciara-se da tal fulana da faculdade passado um ano. Voltara a casar havia uns anos, tinha um casalinho, ele com cinco, e ela com dois e meio. Mostrou-me uma foto deles com a mãe. Eram lindíssimos. Senti o monstro de olhos verdes a revoltar-se dentro de mim ao imaginar por um segundo que era eu na foto. Moravam em Madrid. Depois de ter trabalhado durante algum tempo numa empresa a desempenhar a mesma função que eu, tinha fundado uma empresa própria de consultadoria e era nesse âmbito que ali se encontrava. Pu-lo ao corrente do que tinha sido a minha vida até ali, e fomos falando de coisas triviais até que de repente tivemos uma daquelas incómodas pausas na conversa.
-  Acho que nunca me tinha apercebido das saudades que tinha de ti, Avelãzinha…
-      É…foram bons tempos. – Foi o que consegui articular, percebendo que ele me estava a querer dizer algo mais.
-      Foram mesmo, mas poderiam ter sido muito melhores, não achas?
-      As coisas acontecem sempre como têm que acontecer…    
          As palavras dele ainda me entoavam na cabeça, e faziam todo o sentido para mim, eu também nunca me tinha permitido pensar muito nele, tinha-o “arquivado” juntamente com todas as recordações da faculdade. Mas agora, ali frente a ele, vendo-o de novo, veio tudo à memória, do que tinha sentido por ele, e do que eu na altura tinha lutado comigo mesma, tentando ignorar o queria sentir mais. E para meu desespero, os anos só tinham melhorado o que na altura já era perfeito, nos seus trinta e cincos, os cabelos negros começavam a ter alguns vestígios de cabelos esbranquiçados, que lhe davam aquele ar de homem maduro, e perfeitamente encaixado num fato Armani, estava…demolidor!
          Pensei no meu marido, no que ele insistentemente me pedia. E há quem diga que não há coincidências…
          Sacudi os meus pensamentos e sem saber o que dizer, sugeri que fossemos até à varanda do restaurante, que tinha, segundo ouvira dizer, uma vista deslumbrante sobre Lisboa, com o Tejo em fundo.
          A brisa suave trazia-me traços de Egoiste Platinnum, e ao mesmo tempo que ele me ia contando a aventura que tinha sido, a dada altura ter trabalhado nos Estados Unidos, eu ia sentindo os meus pensamentos a voar, e sem querer acreditar no que estava a acontecer, não fazia nada para evitar, como pelo contrario, queria que o tempo parasse.
          Queria que aquele momento durasse para sempre, queria esquecer que tinha uma vida perfeita em todos os aspectos; tanto pessoais, como profissionais. O casamento com o Luís era alvo de inveja e admiração por parte de todos os nossos amigos, todos eles entretanto separados, ou a caminho disso; profissionalmente, estava no topo da carreira, mas nada disso tinha a mínima importância.
          Tudo o que importava agora era aquele homem que ali estava comigo. Nunca tinha sentido nada parecido.
O sentimento de culpa só servia para aumentar ainda mais o desejo de ser dele, era como se todos aqueles anos tivessem sido uma caverna onde uma outra mulher estivera aprisionada, e que agora se soltava das amarras. Que queria ser fêmea. Que estava prestes a sair para reclamar tudo aquilo a que tinha direito. E tinha direito a muito! E a primeira coisa que iria reclamar seria a satisfação do desejo animal de ser totalmente possuída, de se abandonar às investidas de um macho que, tal como os animais, só saísse dela quando tivesse a certo de que a tinha tomado. Certeza essa, só assegurada largando dentro dela os seus fluidos de vida, a inundá-la completamente, percorrendo-lhe o corpo, na sua mais resguardada intimidade, emprenhando-a. Estava toda arrepiada, sentia a pele toda do corpo a reagir, sentia-me quente.
Foi como se tivesse finalmente visto a luz, era aquele o clique que me tinha faltado até ali para nunca ter sentido o tal instinto animal de sentir que tinha encontrado o macho ideal para ser o progenitor de um filho meu.
Regresso à realidade com o toque do telemóvel dele, era a Marisa, a mulher dele. Cabra! Há mulheres com tanta sorte neste mundo, nunca a vira na vida mas detestava-a. Ela tinha-o como pai dos seus filhos.
Então, como se por telepatia ele tivesse acesso aos meus loucos devaneios, olhando-me fundo nos olhos, foi com um ar de cumplicidade que ao olhar-me nos olhos lhe disse que estava tudo bem, que tinha encontrado um amigo do tempo da faculdade e que estava a pôr a conversa em dia e mais blá blá blá… iria ser um daqueles fins de semana da treta, e que tinha muitas saudades dela. Desligou.
Foi como uma bomba que me rebentou no peito, fazendo o meu coração disparar a mil à hora. Lembrei-me do tal instinto que faz com que os machos sejam tão infiéis. É-lhes natural procurar constantemente a disseminação dos seus genes, cabendo às fêmeas a selecção do melhor de todos. E eu queria-o como meu macho. O que se estava a passar comigo?
          Como estava quase na hora da abertura do congresso, subimos aos quartos para trocarmos de roupa, uma vez que a seguir haveria a tal recepção, e seria com traje formal.
          O tempo que durou, tanto o discurso do director do congresso, dando as boas vindas a todos os participantes, como o cocktail, no jardim do hotel, e tirando breves olhares, nunca estivemos um ao pé do outro. Quando as pessoas começaram a sair, e eu acabava de finalmente me conseguir livrar de um melga que sempre que me encontrava fazia questão de me azocrinar a mona com clichés ao mesmo tempo que se ia babando ao olhar para mim, devorando-me com os olhos. Há com cada cromo neste mundo, meu Deus!
-      Tens planos para hoje à noite? – Sussurrou-me ao ouvido, chegando-se por trás.
-      Não… acho que me vou deitar cedo, estou cansada e amanhã quero estar fresca para não perder nada do que vai ser discutido.
Nem precisava de olhar para ele para saber que devia estar com a cara mais aparvalhada deste mundo.
-      Ah… estava a pensar em irmos jantar a algum sítio, e depois podíamos ir beber um copo. – A voz de desalento dele dizia tudo.
Estava a adorar o jogo do gato e do rato… decidi continuar e ver o que iria dar.
-      Não sei…
-      Conheço o restaurante ideal, vem, não te vais arrepender! – Nisto chegou-se um pouco mais a mim, podia sentir o calor do corpo dele a incendiar-me. Virei-me e olhei-o nos olhos, respondendo-lhe:
-      De certeza? Tens a certeza que vale mesmo a pena? É quem me tira uma noite de sono, tira-me tudo…
Agora, já mais confiante, e com aquele olhar de sacana que ele sempre teve, avança:
-      Às vezes temos que perder certas coisas para ganhar outras… anda!
-      Tá… vou confiar em ti.
          Durante o jantar, num restaurantezinho no Bairro Alto, fomos falando de tudo e mais alguma coisa, excepto dos nossos casamentos. Isso fazia parte de outro mundo, ali, ele e eu éramos nós próprios um mundo à parte. À saída do restaurante, perguntou-me o que eu achava de irmos beber um copo a uma discoteca africana. Respondi-lhe que nunca tinha ido, ao que ele me diz que isso era um problema gravíssimo, mas que tinha o remédio.
          A Mournika, era diferente de todas as discos a que já tinha ido, havia uma energia no ar, não sabia muito bem do que era, quer fosse pela musica, quer fosse pelo facto de os pares, em vez de dançarem separados, dançavam juntos, no mais sensual ondular de corpos que eu já tinha visto, a melodia suave, mas compassada pelas fortes batidas da musica africana provocavam uma espécie de transe, que fazia o corpo sobrepor-se à mente. Era essa a língua que se falava ali, a língua em que os corpos se melhor entendem, a língua falada através do tacto, da visão e do cheiro dos outros corpos em redor.
          Não era à toa que outrora os colonos brancos consideravam a musica africana como obra do diabo. Imaginei o desconcerto que devia provocar naquelas mentes fechadas, verem os escravos de cor de ébano meio despidos a dançarem completamente entregues aos ritmos quentes, que os faziam transpirar sensualidade e desejo por todos os poros do corpo.
          De olhos fechados, embalando-me ao som do kizomba, sinto-o passar o seu braço por trás de mim, abraçando-me pela cintura e pousando a sua mão forte na minha anca, que mesmo por cima do tecido fino, parecia queimar-me, e, chego-me ainda mais a ele, que entretanto se colocou por detrás de mim, e enlaçando-me pela barriga com um braço, começou a conduzir-me com o seu corpo. Eu queria aquilo, queria sentir-me colada a ele, deitei a minha cabeça para trás, apoiando-a no ombro dele, sentindo o calor da respiração dele no meu pescoço.
Com a minha mão direita sobre a dele que me segurava pela barriga, e levantando o braço, puxei-o pela nuca, sentindo o corpo dele no meu, queria ser dele, aceitou-me beijando-me o pescoço, ao mesmo tempo que delicadamente me tacteava o corpo todo desde a coxa, conhecendo-me as curvas, passando pela anca e subindo, tocando levemente na parte lateral do meu seio, e voltando a descê-la outra vez, até a juntar à que já me segurava firmemente pela barriga, a forma como ele o fazia dizia-me, sem palavras o que queria, que era ali, dentro do meu ventre que ele queria estar, e eu reafirmando as minhas mãos sobre as suas, virei a cara, olhando-o nos olhos ao mesmo tempo que ele me beijou, primeiro nos lábios, depois, sentindo-me a entreabrir a boca, tocou-me levemente a língua com a dele, que depois disso ficaram as duas a brigar uma com a outra, a conhecerem-se, ora dentro da minha boca, ora dentro da dele.
Eu não me reconhecia, ali estava eu numa pista de dança de uma discoteca qualquer, com um homem que embora não o fosse, era quase um estranho, um homem casado, a quem eu me estava a entregar completamente.
E pensei no meu marido, nas ultimas palavras que ela me tinha dito nesse mesmo dia de manhã, e no efeito que elas tinham tido. Parecia que isso tinha sido numa outra vida.
Eu já não era a mesma mulher que fugia ao que ele constantemente me suplicava.
Ali e pela primeira vez na minha vida, não tinha dúvidas. Ali, eu não passava de uma fêmea no cio.
-      Leva-me daqui…- Foi num suspiro que lhe implorei.
-      Para onde?
-  Para onde me quiseres levar. – E esticando-me colei a minha boca à dele. Ficámos assim durante o que me pareceu uma vida.
Durante a breve viagem, na qual ele fez quase fez voar o carro pelas estreitas ruas da baixa lisboeta não trocámos uma palavra sequer. Não era preciso. Quando chegámos ao hotel e nos dirigíamos ao balcão da recepção, ele parou de repente, fazendo-me um ar de sobreaviso, e dizendo em voz alta qualquer coisa como “que tinha adorado discutir os pontos de vista sobre o congresso”. Sem perceber o que se estava a passar, ouço atrás de mim passos a entoarem no piso do átrio.

terça-feira, 10 de junho de 2014

Sim, Mestre! (3ª parte - final) por Rosa Mateus


Olá a todos, respondendo a mais um desafio da Dulce, e como se eu não tivesse mais nada que fazer - não é Dulce? - aqui vos deixo a forma como eu terminaria o "Sim, Mestre!"

Sim, Mestre!
Por Rosa S. Mateus 

O mestre Mestre, sem sequer saber bem de que terra era, com tal intensidade aquele orgasmo lhe sugara, juntamente com o seu vermute, todo o sangue que normalmente irriga o cérebro para a sua outra cabeça de homem, tentava a custo controlar as tremuras que lhe assomavam às pernas.
Tentou acertar a respiração, primeiro com a sua necessidade de ar, e depois com o bater do coração; como era possível nunca tampouco ter chegado perto dum nível de prazer como acabara de atingir, que só uma palavra conseguia dar uma pálida ideia: magnificente!
O olhar da Filipa, doce como uma taça de mel, procurava-lhe uma reação: um qualquer sinal de que o agradara condignamente; algo que a sossegasse de que a sua prestação lhe garantiria uma recompensa extra.
Aquelas golfadas do que ele tinha de mais seu, por si só, eram já garante duma eterna e arrasadora memória daquela noite; da sua primeira vez que sentira verdadeiramente capaz de deixar um homem de cabeça à roda com o prazer que lhe proporcionara.
Como o seu agora confirmado poder como fêmea, era tão incontestável, que conseguira derrear o mais enigmático, magnético, exigente, másculo e subjugador exemplar varonil com quem alguma vez se tinha cruzado em toda a sua vida.
Nada tivera que ver com amor; nada no Mestre a fizera sentir um desejo de ternura ou de carinho ou de qualquer outro dos inúmeros aspetos duma normal relação entre um homem e uma mulher; nada!
Ou não?
Ou seria aquele afinal um dos aspetos numa relação entre um homem e uma mulher, que, mais do que normal era imprescindível? Perdeu-se nesse enigma, enquanto processava tudo o que via e sentia ali assim de joelhos com aquele intenso sabor a interdito na língua e no espírito, enquanto olhava de baixo para aquele, assim ainda mais, imponente e arrebatador homem que não era o seu mas que a fizera dele como nunca o marido conseguira.
Ter saciado a sua sede de homem, despertou-lhe a fome de virilidade; e a forma como se sentiu salivar da sua outra boca – a boca do corpo – de mulher, impeliu-a a urgir um outro passo na direção que esperava que o mestre Mestre tomasse: a duma conclusão, duma finalização da sua posse, e ulterior prazer supremo que lhe daria no percurso que terminaria quando e só quando ele bem entendesse. Soube, como qualquer bombeiro saberia se se deparasse com o fogo do inferno para apagar, pelas brasas com que ele a olhava que demoraria no mínimo bastante tempo; muito mais tempo do que a permitiria chegar a tempo antes do marido.
Esse pensamento trouxe-lhe paz! Finalmente sentiu toda aquela angústia, de sempre – de não perceber porque procurava ele noutras o que procurava – ser apaziguada por uma tranquilizante certeza: não, não era um problema dela; não era ela que não tinha o que devia ter para agradar a um homem; não, não era dalguma parte de si, que a sua demasiadamente balizada educação cristã e permanente excisão mental em que as matriarcas manipuladoramente a haviam deixado crescer, que lhe faltava!
Não era nela que o problema devia ser procurado, mas sim no marido! E paz maior encontrou quando o imaginou a ele em todas aquelas eternidades que ela passara de pernas enroladas sob si mesma no canto do sofá, encontrando no intenso aperto duma almofada o único meio de a confortar da sua frustração pelo que o marido tardava em não aparecer, vindo de sabia-se lá donde; uma paz que era a mesma paz que ele devia sentir se nela pensasse e contudo continuasse a sua desprovida de escrúpulos e egoísta busca de prazer!
Prazer, que agora era a vez dela de o ter!
Por anos e anos a fio depositara as suas poupanças numa conta onde ajuntara uma maquia milionária e agora era chegada a hora do resgate! Queria levantar tudo o que era seu por direito, e queria-o com todos os juros e dividendos, que era para encerrar a conta definitivamente. Encontrara um outro destino onde elas seriam mais valorizadas; e seria às mãos daquele Mestre que ela confiaria aquele capital, para que ele o rentabilizasse e lhe soubesse devolver sob a forma duma renda vitalícia de prazer ilimitado.
O Luís puxou-a para que se levantasse, ela fê-lo colada a ele. Ele segurava ainda a gravata que fora venda e ela juntou as mãos para lha tirar.
Deixou-a, pensou que ela não quisesse mais adentrar aquela obscura floresta de desejos submissos, mas a forma como ela, continuou a segurar a gravata e, depois de rodar sobre si mesma as voltou novamente a juntar atrás das costas, fê-lo sentir um soco na barriga: ela queria que ele lhe amarrasse as mãos com a gravata venda, agora algema.
Ele, antes de a manietar, como se para se assegurar quão disposta e segura estava do que lhe pedia, agarrou-a pelo cabelo, desta vez com força, rangeu os dentes quando pressentiu o seu instinto de lidador deixar claro que se fosse solto, nenhum deles esperasse maciezas e comedimentos, e puxou-os retesando o braço como D. Fuas há de ter feito quando à beira do abismo se apercebeu do que o esperava um passo à frente; e como a montada se soergueu sobre as patas traseiras, também ela se dobrou toda àquele puxo.
Ela esperava que ele o fizesse, não com tanta força, nem que lhe provocasse tanta dor, e gemeu o prazer da surpresa. E o mestre que o Mestre, até ali ainda refreara, tomou por fim conta do que ainda mal começara. Amarrou-lhe os pulsos com força, numa sucessão de nós cegos e apertados que fizeram a Filipa tremer pela renovada e intensificada vulnerabilidade e garantiram ao Mestre que nunca na vida aqueles nós seriam desfeitos – quer figurada, quer literalmente – e que para a soltar só a talho de faca!
Ela sentiu-o a guiá-la para o centro do quarto; com a ponta do pé tocou num painel da parede que se abriu com a pressão e seguiu o puxo da mola que o fazia girar cento e oitenta graus revelando o espelho do chão ao teto que escondia da parte de trás.
Entre a dor contínua que o puxo dos cabelos a impedia de parar de sentir, e o impacto da visão da sua subjugação à mercê daquele homem enorme, soltou um outro gemido – mais forte, mais dorido – e esperou.
Ele não a chegou a soltar, mas aliviou um pouco a força. Não por condescender ao seu lamento, mas para preparar ainda mais; como um animal feroz que prova sangue fica impreterivelmente aficionado ao seu sabor, também o Mestre ficaria para sempre adicto àquele inimitável e perigosamente viciante som de submissão. Puxou o cadeirão, pesado e com braços, de frente do toucador e colocou-o rudemente em frente dela, e mais uma vez retomando toda a garra nas crinas da Filipa, dobrou-a sobre as costas do tal. Sem nunca a soltar, separou-lhe as pernas com os pés até que ela dividisse o seu peso entre os dois dela e a barriga. Ao mesmo tempo que a obrigou a olhá-lo no reflexo do espelho; como um quente em manteiga mole, enterrou-lhe o seu punhal de prazer até ao cabo, não lhe dando sequer tempo de respirar novamente antes de ainda mais fundo lho reafirmar quando um ainda mais forte puxão pelos cabelos a fez sentir o esplendor duma penetração lascivamente dolorosa.
A Filipa percebeu enfim o que estabilizaria o ímpeto matador dele num perfeito equilíbrio com o seu desejo de às suas mãos entregara a vida numa morte de prazer; a tão deliciosa morte de prazer inerente à sublimação do êxtase sexual!
Não durou muito! Nem ela própria acreditou quão rápida e enormemente aquele novo responsável pelas suas economias de sensualidade a reembolsaria da primeira tranche; de tal modo se surpreendeu que receou que tivesse sido uma devolução total do depósito inicial que ela lhe confiara – foi numa e duma só vez, o mesmo prazer que, se somado, sentira em toda a sua vida! Pensou que não seria possível, depois daquilo, ele alguma vez lhe voltar a conseguir assegurar aquele manancial que ela fantasiara.
Justificado erro e inequívoco sinal da sua inexperiência; como minutos depois reconheceria quando nova entrega ele lhe devolveu quando em gritos e suplicas sem nexo para que ele por favor, por Deus, por tudo e pelas suas duas mães: a que era Santa e a valente cabra, porque àquilo a conseguira vedar toda a amostra de vida até aí vivida e que só agora passaria a viver efetivamente.
Mestre, que mestrado se julgava em levar mulheres ao prazer, soube então que até àquele dia nunca fora mais que um mero aprendiz; nunca soubera nem nunca vira sequer o que era afinal uma mulher a ter prazer – nunca!
Queria continuar indefinidamente. Queria perpetuar aquele momento de partilha entre dois seres que conheciam por fim um outro patamar – não, patamar é pouco! – uma nova dimensão de prazer; mas não conseguiu!
A mensagem subliminar que a Filipa, quer através dos gritos e gemidos, quer através das contrações com a sua feminilidade lhe massajaram a lâmina, reteve-a e entendeu-a o seu corpo; era uma ordem para que através da sua nova explosão, lhe proporcionasse a dela – uma que queria plena e arrasadora, como só sentindo o depor das armas de um homem, uma mulher consegue conhecer.
A recente e fresca recordação da surpresa dos jatos na sua boca, deixaram-na inconscientemente alerta e sensível a todas as futuras manifestações da mesma sensação, fosse onde fosse do seu corpo, por isso, quando nova oportunidade pressentiu de a mesma sensação reviver, toda a sua alma se lhe dedicou: não imaginava – nada, alguma vez, a preparara para que o fizesse – onde, a mesma sensação, na sua mais sua intimidade a levaria! Parte do cérebro parou-lhe, e a outra parte ficou a bater mal. O êxtase foi forte demais para que ela conseguisse manter a consciência; foi-se numa alternância de gemidos, gritos que pareciam lamentos, e de outros que lembravam os mantras do yoga, só que entoados num registo exageradamente alto.
No meio de toda aquela corrente de estímulos, um pensamento assomou-lhe a mente: que soberba justiça seria, se o marido a visse naquele preciso e exato momento, em que bem no fundo do seu útero se sentia a receber tamanha descarga viril de um homem que a fazia sua; a imagem daqueles olhos vazios e sem brilho a olhá-la incrédulos, acender-se-iam seguramente naquela merecida condenação por todos os tormentos e humilhações a que a votara.
Tal imagem acabou com o resto dela que ainda funcionava. Veio-se numa sucessão de orgasmos interminável que se estendeu por uns eternos dois minutos, ou mais ainda, após o que perdeu completamente a – pouca – consciência que ainda lhe subsistia.  
Quando a sentiu imóvel, Mestre descravou-se lentamente do corpo da mulher que jazia inerte; a Filipa, à exceção das costas que conforme respirava, contraiam e expandiam, aparentava ter deixado o, este, mundo.
No gozo que ia esmorecendo, nem um som fazia.
Porque só perdendo algo se lhe sente a falta, pela morte que experienciara, a Filipa soube por fim que vivia – soube porque se sentiu voltar à vida, e soube que morrera porque a vira a ir-se quando o sentiu esvair-se. Um mesmo e único momento da mais jubilante simbiose: esvaíra-se ele, enchera-se ela; o gozo dela, que o fizera gozar a ele, originou por sua vez o dela – o derradeiro e incomparavelmente superior – por ser mulher!
Que nisto de prazeres e gozos, por grandioso que o de um homem seja, comparado ao que uma mulher sente nunca passa duma pequena ideia comparada com uma genial revelação! E é simples de entender que assim seja: uma mulher, se bem ligada e acesa, torna-se toda ela dos pés à cabeça “zona erógena” ou ponto G, ambas risíveis teorias seguramente lançadas por algum iluminado (homem, só pode!) dalguma vez que descobriu o que era possível despoletar quando se tocava uma mulher – mas esqueceu-se foi de ver o que acontece quando se toca toda, no corpo e na mente!
A Filipa, feita boneca de farrapos, sentiu-se erguida pelos ombros. O mestre Mestre, agora simplesmente Luís, amparou-a e depô-la suavemente na cama, deitada de lado.
Foi buscar à gaveta do toucador uma tesoura com que cumpriu a sentença a que condenara a gravata, e ajudou-a a rodar-se para que ficasse deitada de costas.
Passou-lhe um dedo desde a ponta do dedo grande do pé, lentamente, pelo corpo todo, circundou-lhe o umbigo perfeito e veio a terminar, depois de se demorar um pouco naquele ponto que fez o outro do pátio das cantigas fazer um brilharete no exame de medicina, de longe o mais perfeito que ele alguma vez vira, veio a terminar na sua face agora menos ruborizada.
Ela abriu os olhos para, pela primeira vez o ver sob uma irresistível vontade de lhe dar e sentir um carinho.
“Beija-me.”
O Mestre, agora já não - ou pelo menos não por agora – mestre baixou-se e parou a centímetros da boca dela. A certeza de que a sua vida mudara naquela noite fê-lo deter-se.
“O que é que aconteceu aqui, dizes-me?”
“Não sei, diz-me tu; afinal quem é o mestre?”
Ele parou de a olhar nos olhos e olhou-a para lá deles. Perdeu-se na mente dela e soube que, embora fosse infantilmente cedo demais para o sentir, também ela como ele se tinha apaixonado.
“Não há ninguém que queiras avisar?”

“Não.”

FIM


Golegã, 10 de junho de 2014
Rosa Mateus

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E pronto, é isto; como alguém disse um dia, Se queres ser melhor, dá-te com os melhores...
Palavras para quê? Percebem agora o que eu digo quando falo como falo dela? Depois disto vou-me ali enrolar debaixo duma pedra e deixar-me morrer...  
Calma, estou a brincar... que isto é tudo uma questão de tempo, de crer e de insistir!

Obrigada amiga, és a maior, m'lhere! 

quinta-feira, 5 de junho de 2014

Fome de Corno! Por Rosa Mateus

Eu nem quis acreditar quando abri o mail há pouco, e vi este presente!

A mais linda surpresa que eu podia receber, para celebrar as 700 visitas!

Obrigada querida amiga, só tu!



Fome de corno!
por Rosa Mateus

Olá, chamo-me Fernando, tenho 39 anos e, sei-o visceralmente, sou cornudo!
A Dulce, minha mulher há dez anos, tenho a certeza de que me anda a trair. Nunca vi nada de concreto, mas um homem sente certas coisas, e um valente par de cornos – acreditem – sente-se de sobremaneira.
São certos detalhes, olhares, atitudes que me deixam sempre alerta, para quê não sei, mas deixam-me permanentemente atento a ver se descubro. O que farei com essa descoberta não sei. Eu amo a Dulce e simplesmente não consigo imaginar a minha vida sem ela, e sei que ela me ama também.
Como posso ter isso como certo, se ela tem outro? 
Como eu disse, há coisas que um homem sente!
Às vezes dou por mim a pensar nela, no que andará a fazer e, Meu Deus, as coisas que me passam pela cabeça. Visões dela com outro homem, num quarto dum hotel, no banco de trás dum carro num descampado qualquer, sobre um capot no meio dum pinhal são apenas alguns exemplos.
O, mais do que possível, provável homem com quem ela partilha o que, frente a duzentos e quarenta e cinco convidados, um padre e a Deus, ela se comprometeu a manter meu e só meu – o seu foder – é o que foi o seu primeiro e que ela faz questão de manter sempre como alguém muito especial. A forma como ela o faz, chega a ser retorcida e calculadamente como uma autêntica cabra!
Nós conhecemo-nos quando ela deu aulas aqui no Entroncamento. Chegara ao limite de suportar a relação com esse tal S, que se resumia a uma constante montanha-russa de permanente alternância amor-ódio, desde que tinham começado a namorar ainda na escola andava ela no 10º ano e o apanhou quando ele repetiu a cadeira de Matemática na turma dela.
Segundo ela me contou na altura, o que a atraia mais nele era o que mais raiva lhe dava. Ele era extremamente possessivo, não a podia sequer ver a conversar com ninguém, mas quando ficavam sozinhos ela percebia que toda aquela possessão se devia a uma única razão: ele amava-a mais do que à própria vida, e mostrava-lho através da forma como fazia amor com ela. Por mais distante que ela se tente – tentasse, que já há muito deve ter percebido que não consegue – mostrar já longe do que isso mexia com ela, eu sempre percebi que “aquele lugar muito especial” era um lugar onde ela, mentalmente voltava mesmo que não quisesse, mesmo que o quisesse duma vez por todas tirar da cabeça e da pele, mesmo que desejasse num tudo por tudo que a nossa relação resultasse.
Aprendi a viver com isso, afinal cada pessoa é como é devido a tudo o que viveu, certo?
Mas uma coisa contudo eu sempre soube: de tempos a tempos, eles falavam. Ia-o sabendo porque ela me dizia que ele lhe tinha ligado, para saber como ela estava, falavam dos miúdos dele, ele dizia-lhe o tremendo incómodo que ela representava para a mulher dele, que se sonhasse sequer que eles falavam que seria a queda do Carmo e da Trindade. Segundo ela, isso era a desculpa para ser sempre ele que a ligar; como se, por um lado isso interessasse realmente para alguma coisa, ou se, se realmente assim fosse, não houvesse uma periodicidade muito mais frequente do que a semestral como ela me contava que acontecia.
Com o tempo, passei a lidar com as voltas ao estômago que sentia ao princípio, passando-as um pouco mais para baixo: para o meu baixo ventre!
Fui sentindo o processo, e de cada vez que sem o conseguir evitar, pensava na eventualidade de algo se poder passar, mesmo que não passasse duma profundidade maior de sentimentos residuais que eles ainda nutrissem um pelo outro, sentia-me menos revoltado, e mais excitado.
Processo este que foi demorado, que esta coisa dos cornos não é coisa que nasça assim de qualquer maneira, levou uns quatro ou cinco anos a acostumar-me à ideia de os poder ter, e depois mais uns dois ou três a acostumar-me ao seu peso.
Quando já os suportava confortavelmente, comecei a desfrutar deles. Começava no próprio dia em que ela me dizia que tal dia teria uma reunião na escola, e que seria uma chatice, pois teria que lá ficar até tardíssimo, coisas desse género.
A comichão nas minhas frontes estendia-se ao interior da minha cabeça que rapidamente fazia umas contas de cabeça e calculava daquelas horas todas que ela falava – geralmente essas reuniões eram sempre ao fim do dia em que não tinha aulas da parte da tarde – dava perfeitamente para ir até uma das cidades vizinhas, fazer o tivesse a fazer durante uns bons pares de horas – e regressar ao Entroncamento com a barriga cheia de saudades mortas do ex-namorado.
O efeito, foi-se começando a notar nessas noites anteriores, em que eu, inconscientemente, tentava pelo menos igualar ou aproximar-me do que eventualmente ela viesse a sentir no dia seguinte; e prolongava-se na noite seguinte quando a imaginava de regresso do tal hipotético parenteses da vida real que eu imaginava que ela ia abrindo e fechando, contendo lá dentro aqueles momentos só dela e do seu primeiro homem.
Talvez pelo peso dos adornos, tudo aquilo acabava por fazer sentido: afinal, ela agora era minha porque queria, porque o tinha deixado, e era a mulher que era porque assim ele a tinha feito; a distorção da realidade ia ao ponto de eu ainda, no fundo, me sentir profundamente agradecido cá no meu íntimo ao excelente trabalho que ele fizera.
Em suma, aprendi a lidar com a situação como quem compra um carro novo e sabe que uma tarde ou duas por ano ele tem que voltar à origem para verificar se está tudo como deve ser, se está a ser devidamente tratado e estimado.
Felizmente, sempre resisti a cair no erro tão comum de tantos homens por esse mundo fora, convencidos de que é com a força e brutidade que mostram a sua força. Nunca me pus a aprofundar as minhas suspeitas, nem sequer a controlá-la minimamente; por um lado porque sabia que se o fizesse, fodia tudo entre nós – afinal tinha sido isso que a afastara do gajo – pois se havia coisa contra que ela estava vacinada era a ciúme doentio; por outro porque, objetivamente, nunca vira a menos razão para não confiar nela, nem mesmo quando ela regressava das tais reuniões/supostas-tardes-loucas-de-mulher-casada que eu imaginava; e por último porque tinha um sério receio de que tudo afinal não passasse de um enorme e indescritível: Nada!
Um nada se passar, desmoronaria todo aquele castelo que já não era só castelo, mas um castelo, cidadela, muralhas, pontes, rios, igrejas, pastores, reis e ovelhas, que já mais parecia um presépio com um castelo de cartas, que eu construíra na minha fantasia.
Aos poucos, fui revelando a minha abertura de mente, comprei uns dildos em sex-shops online, e fazia-os aparecer convenientemente no meio da cama quando e sentia já totalmente incendiada.
Da primeira vez, foi um pateticamente pequeno. Tinha vibração, e eu, caindo naquela velha esparrela de que o tamanho não importa, achei que seria o indicado para não a assustar; assustá-la!, como se alguma mulher se assuste com um valente e apresentável instrumento desde que seja usado convenientemente.
A sua disfarçada desilusão fez-me logo no dia seguinte voltar ao site e encomendei logo, pelo sim e pelo não mais três: um médio, mais ou menos no meu tamanho; um maiorzito, do tamanho que eu não me importaria de ter, e um XXL, o derradeiro tira-teimas que, se ela o suportasse, acabaria de vez com a sua insistente necessidade de me tentar convencer de que se eu fosse um pouco maior não seria bem melhor. Enfim, coisas de gajas, adiante!
Passei a, ciclicamente, porque nem sempre a sentia para aí virada - e verdade seja dita nem eu – ir incluindo aquela brincadeira nas nossas sessões de sexo, que nunca tendo sido insonsas, foram cada vez ficando mais e mais animadas. Mas de há uns tempos para cá, e principalmente desde que ela ficou desempregada, o clima tinha ficado um pouco para o não presta; tanto que a mala onde guardamos os ditos “jogadores suplentes”, a última vez que fora desarrumada, tinha sido por altura da passagem de ano.
Fora, porque foi-o a semana passada!
Eu cheguei um pouco mais cedo a casa do que costumo. Entrei como entro sempre, fechei a porta e como não a senti em casa, fui direito à cozinha e servi-me dum copo de água. Estava a bebê-la e pareceu-me ouvir alguma coisa, quando tirei o copo da boca, e ia para a chamar, ouvi-a clara e distintamente a gemer como só o faz quando se vem: começa num gemido longo que vai subindo e subindo de tom até terminar com o que parece uivo de loba em noite de lua!
Gelei da cabeça aos pés! Aquela valente puta estava na cama, a ser magistralmente fodida; restava saber por quem… E se ela berrava!
Pé ante pé, fui até ao quarto. A porta encostada deixava uma conveniente frincha por onde consegui vê-la: deitada de costas na cama, de olhos fechados, com o tal tira-teimas gulosamente enterrado até ao par de colhões a fingir que lhe serve de base. Estava possuída! Acabara de se vir e já retomava a lavoira daquela sua racha que agora mais devia parecer um algar, com uma fúria como eu nunca me atrevera a escarafunchá-la quando era eu a usar um dildo nela – mesmo quando era o outro, dois tamanhos abaixo. Num ou dois minutos no máximo, veio-se novamente.
Nem ela própria se deve ter dado conta, mas no meio da palavras desanexas, dizia o meu nome, se eu gostava, se era assim, ou assim que eu gostava de a ver a ser fodida; ela estava a fantasiar que o dildo era um outro homem e que eu estava a assistir!
A minha primeira vontade foi a de irromper quarto adentro e fazê-la engolir aquelas palavras; não sei bem o que queria conseguir com isso, agora à distância talvez fosse algum poder sobre ela, e é isso que me faz reconhecer quão estúpido, agora; o poder que eu queria ganhar seria para que ela fosse ainda mais minha, quando em concreto ela nunca, nunca me dera a mínima ideia do contrário, e tudo aquilo não passava das minhas tretas de marido encornado.
Mas o que é que eu para aqui estou a dizer? Que ela mantinha a sua ligação ao ex-namorado era incontestável, e eu só não sabia mais porque não calhava! E nada, por mais que nunca a tivesse apanhado a mentir, também nada me garantia que não fosse pela sua inteligência.
Resolvi ir por outro lado: deixei-a sossegar e voltei para ao pé da porta da entrada. Se ela por acaso se levantasse, fingiria ter acabado de chegar e estaria de pé a ver um qualquer folheto que tivesse na caixa do correio. Não precisei de fingir nada, ao fim duns minutos, como nada se ouvia do quarto, estranhei, esperei ainda mais um pouco e lá voltei outra vez à porta do quarto. Aquela maluca, de tanto se ter vindo, deixara-se adormecer. O ar de saciação na cara dela dizia tudo, não podia estar mais satisfeita, e eu, com o olhos pegados naquele barrote que agora jazia inanimado entre as suas pernas, ainda a brilhar do seu muco vaginal, só conseguia imaginar o estado em que ela teria aquela vagina; devia estar tão aberta que eu dentro dela pareceria o badalo a abanar no meio dum sino.  
Deixei-a dormitar mais uns minutos, voltei a abrir a porta da rua, bati-a como se viesse a chegar e chamei-a como faço normalmente.
Dei-lhe mais uns momentos para lhe dar tempo de fazer o que tivesse planeado, e foi sem surpresa que a vi retirar disfarçadamente a mão de debaixo da almofada, onde seguramente devia ter escondido o seu companheiro de aventuras solitárias. Disfarcei não reparar no canto da mala das maravilhas que eu não podia evitar de ver, embora estivesse do outro lado da cama, e mostrei-me naturalmente preocupado com o facto de ela estar deitada àquela hora.
Respondeu-me que tivera uma dorzita de cabeça, mas que entretanto já passara. Ficou convencida de que eu acreditara e fomos preparar o jantar.
Como amor com amor se paga, se ela me mentira em tinha todo o direito em fazer-lho também; durante o jantar fiz-me de cansado e com uma vontade daquelas de cair na cama e descansar o esqueleto. Sempre queria ver o que é que ela fazia.
Assim que nos deitámos voltei a referir que estava realmente moído; foi a prova de fogo, e ela passou com distinção quando me ronronou:
“Amorzinho, eu quero-te!”
“Mas o que te deu hoje?”
“Nada. Estou excitada, deve ser por causa do texto que estou a analisar… toca-me e sente como eu estou!”
Ok! Fazia sentido; quando a senti alagada nos seus fluídos espessos e viscosos, da sua tarde de suruba solitária, fiquei doido. Quis ver mais de perto o que senti com os dedos. Desci por dentro da cama, e ela – sabendo aonde ao que ia, facilitou: abriu bem as pernas escancarando-se toda. Quando aproximei a língua da sua boca de baixo, acomodei-me como que a assegurasse não tencionar ir a lado nenhum nos próximos tempos.
O seu cheiro a cio foi intoxicante; era um cheiro intenso e refinado que por si só me entesava todo. Não fazia ideia do que é que ela lá quisesse dizer com a história do texto, mas alguém escrevera algo capaz de deixar uma mulher assim tão excitada, a ponto de se entregar ao prazer como só um homem normalmente faz, macacos me mordessem se eu não queria também ver.
 “Dulce?!”
“Sim amor?”
“Que se passa contigo? Que andaste a fazer esta tarde?”
“Porque perguntas?”
“Porque estás toda alargada e vermelha… como se tivesses passado a tarde inteira a foder…”
“É mesmo amorzinho? E se tivesse? Se eu te dissesse que sim, que estive a tarde toda a transar, ficarias zangado?”
O ar desafiante dela deixou-me com receio de ter ido longe demais. Senti-a retraída; deve ter ficado assustada com o facto de eu poder desconfiar do que quer que ela tivesse estada a fazer durante a tarde. Parei e fiquei a olhar para ela com ar inquisidor, como se tentasse perceber o que raio se estava ali a passar. Puxou-me a si, e não consegui disfarçar o tesão que me devia incendiar o olhar; tentei evitar que me sentisse a rigidez que me denunciaria, mas acho que ele mo sentiu não obstante.
Isso deve-a ter sossegado um pouco e envolveu-me entre as coxas, ajeitando-se debaixo de mim, agora bem mais confiante do que segundos antes. Então, com um decidido e certeiro impulso, empalou-se completamente no meu pau, fazendo-me enterrar por ela dentro até aos tomates ficarem espalmados conte o seu rabo.
Nunca a sentira assim, a sua cona parecia uma taça de papa mole e quente, estava completamente lasseada; e fiquei doido. Fodi-a com raiva. Tudo o que eu tinha em mim de macho, apliquei-o naquela foda que a fez alucinar de prazer.
Nem quando me sentia mais enraivado com o saco de boxe onde regularmente dava uns socos para me livrar da tensão do dia a dia, o fazia com mais raiva, eu queria desmanchá-la ao meio à conta daquela foda.
Acho que queria acima de tudo arrancar-lhe aquele ar de luxúria e de volúpia estampado na sua cara, tal era o prazer que ela estava a sentir – foi aí, mais uma vez, que senti falta duma arma de maior calibre, mas aquela teria que fazer o serviço – só teria que disparar umas quantas vezes mais, e usar de outros artifícios; os que só quem tem um coiso dum tamanho normal percebe: ferrei-lhe os dentes no pescoço!
Tanto deve ter resultado que a fiz vir-se com um grito que aposto que se deve ter ouvido até ao outro lado do Entroncamento.
Deixei-a recuperar uns segundos para voltar a ganhar fôlego, e ela perguntou-me:
“Ai amor, assim matas-me de prazer. Todo esse tesão é porquê? É por aquilo que te disse? É pela ideia de que eu possa ter estado com outro? Outro homem que passou a tarde a comer-me? À tua mulherzinha? É?”
Se não tinha respondido, aí é que não podia ter respondido mesmo; com uma última estocada que me levou mais dentro dela do que nunca fora antes, enterrei-me todo e parei: vim-me num, e noutro, e noutro, e noutro e ainda num outro espasmo naquela que foi de longe a mais violenta esporradela de que tinha memória desde que me iniciara na maravilhosa arte da auto infligida glória solitária e na posterior atividade sexual acompanhada. É exagero, mas senti os tomates a esvaziarem-se de tal maneira que imaginei que encheria uma garrafa de 33 cl até ao gargalo!
Quando acalmei, tentei sair, mas ela não deixou. Sussurrou-me ao ouvido:
“Eu amo-te. Nunca estaria com outro homem, e tu sabe-lo bem.”
“Eu também te amo…”
“Meu Deus! Tu ficaste louco, foi por aquilo que eu te disse?”
“N..não, não sei… talvez. Foi forte! Imaginar outro homem contigo foi como um ferro em brasa na minha cabeça.”
“Mas deixou-te assim como te deixou…”
“Onde foste buscar essa ideia?”
“É do texto que eu estou a trabalhar. Lê-lo deixou-me assim.”
Contou-me a história, e perguntei-lhe se estava assim tão alargada só da excitação e a aflição fê-la engasgar um pouco; senti-lho uma rendição no olhar.
“Não. Eu estava tão excitada que me masturbei; mas ainda foi pior. Eu precisava, precisava demais de me sentir bem comida, e fui buscar a nossa mala. Eu não estava em mim, de tão excitada que aquela história me deixou.”
“A mala? Mas tu nunca achaste grande graça aos brinquedos…”
“Nunca. E nunca pensei vir a fazê-lo. Mas como a R diz no seu livro, nunca se deve dizer nunca…”
“E como foi? Qual usaste?”
“O grande… aquele que me deixava desconfortável, mas que hoje, como eu estava foi o melhor que tu podias ter comprado para mim.”
Afinal, não fora nada daquilo que eu ainda esperara, mas mesmo assim, deixou-me novamente a pontos de partir pedra à paulada!
Ia para a montar novamente, mas ela fez-me parar.
“Dá-me prazer com a tua língua.” Não foi nem um pedido, nem uma ordem; foi uma imposição suplicada!
Nunca gostara muito de o fazer após me ter vindo, não era nem pelo sabor nem pelo que representava, simplesmente não lhe via grande sentido daquela forma: via-o sim como um preliminar. Mas da forma como ela me fez sentir que queria, e eu não podia arriscar abrir um antecedente que lhe desse a justificação duma próxima vez que eu lhe pedisse que me acarinhasse com a sua língua as minhas partes furibundas.
Atirei-me à empreitada apostado em proporcionar-lhe o minete da vida dela!
Ela estava cheia até às bordas, e o simples toque da minha língua fê-la piscar tão fortemente que até espichou um pouco de esporra para a minha cara. Imaginei que ela assim estivesse por fantasiar alguma coisa mais extrema; por exemplo – e isso fazia tudo ganhar uma outra dimensão e sentido – que toda aquela esporra fosse proviesse daquele caralhão descomunal em que ela se acabara durante toda a tarde!
Voltou-me a atacar em força a minha velhinha fantasia-temor; como se aquele brinquedo de gente grande não fosse nada mais nada menos do que um urgente e único remédio face à sua implacável vontade de matar saudades do outro!
Engoli em seco mentalmente imaginando o outro do tamanho do brinquedo; excitado como estava, nem sequer me preocupei com a triste figura que eu andara a fazer durante todos aqueles anos que passáramos a foder- aliás, o que me veio à ideia foi precisamente o contrário: esperei que sim! Que já que era para ser, que fosse em bom.
Resisti, sei lá como, para não lhe levantar a lebre e deixá-la de pulga atrás da orelha, a pedir-lhe o seu acompanhante da tarde, e deleitei-a com a mais esmerada amostra de paraíso lingual.
Dei por mim a gostar realmente daquilo, e deixei-me afundar ainda mais; já não era a minha esporra que eu sorvia e aproveitava para a encharcar ainda mais enquanto chafurdava que nem um alarve naquele rio de prazer que escorria da sua intimidade. Levei-a àquele ponto em que uma mulher se vem sem parar umas vezes atrás das outras, até que não consegui segurar-me mais: tinha que me sentir novamente naquele barroco de fogo intenso, e subi por ela acima que me recebeu ainda meio grogue  

A sua fome assegurou-me de que aquilo era uma fantasia sua também. Não mo disse, mas também não precisou. Eu conhecia-o bem demais para saber que aquele caminho nos levaria por viagens intermináveis de prazer e tesão.
Tinha a minha boca, e toda a cara chias de nós, e ela quis também provar do nosso prazer. Acabámos por nos devorar um ao outro enquanto, estocada atrás de estocada, sentindo a consistente construção do mais vertiginoso orgasmo conjunto, nos fomos preparando para o grande momento.
Dizer que foi mágico, além de meio amaricado, fica aquém do que foi, mas vocês percebem-me.
Quando final e inevitavelmente caímos completamente estafados, ficámos a olhar um para o outro; a ver o quanto aquilo nos tinha aproximado – ainda mais do que sempre fomos!
Adormeci a magicar numa forma de, pelo menos incentivar a levarmos mais longe aquela nossa fantasia; mais no sentido de, pelo menos a fazer assumir-me que gostaria da ideia de que outro homem a fodesse à minha frente, afinal eu comecei por assumir que sou cornudo, ou não? E um cornudo não fica cornudo quando a mulher lhe põe os cornos; já nasce cornudo!
Depois, é uma questão de ter a sorte de encontrar a mulher certa para fazer o resto! Só tinha era que fazer as coisas de maneira a deixá-la pensar que ela é que ia comandando!

Fim

Um miminho para enfeitares o teu blog maravilhoso, com um grande beijinho!

Rosa Mateus, 5 de junho de 2014